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sexta-feira, 2 de abril de 2010

A gaveta.

Em alguma região do cérebro humano, numa gaveta meio emperrada, deve estar guardado tudo aquilo que pensamos que não lembramos mais, ou, explicando melhor, as lembranças que demos por esquecidas.
Vez por outra elas escapam lá de dentro, trazendo consigo alguma sensação inesperada, um cheiro, uma música, uma imagem lavada pelo tempo, ou, no mínimo, a triste constatação da velhice que chega.
Enquanto as memórias úteis (nome, endereço, telefone, RG, CPF, “preciso levar a chave”, três vezes quatro: doze, “sexta tenho dentista”, dáblio, dáblio, dáblio ponto alguma coisa, etc.) passeiam com livre trânsito pelas dobrinhas do encéfalo, estas outras permanecem engavetadas, penso eu, por um motivo óbvio. Se todas as informações de uma vida inteira pudessem circular livremente pelo nosso consciente, com certeza enlouqueceríamos.
Talvez algumas dessas lembranças ocultas, por vaidade ou claustrofobia, tentem escapar da gaveta a todo custo.
Outras, quem sabe, preferem a reclusão e detestam quando são desencavadas por algum motivo.
Pode ser que, escondidas ali no seu universo, elas interajam em estranhas relações do tipo – um velho professor de geografia brincando com um coelhinho de pelúcia.
Ou pode ser ainda que estejam em estado de hibernação, alheias ao fato de que podem ser invocadas a qualquer momento.
Seja lá qual for o regime que impera nesse mundo desconhecido, é possível que uma antiga vizinha de aparelho nos dentes se surpreenda ao se deparar repentinamente fora da gaveta, arrancada por uma conversa banal: “sabe quem eu encontrei no banco? A Vaninha do 102. Casou, separou e tem três filhos.”
Com o advento dos programas de relacionamento da Internet, muita gente tem sido desengavetada com uma simples mensagem de texto: “lembra de mim? Eu sentava ao seu lado na sétima série.” Essas mensagens às vezes vêm acompanhadas de uma foto de alguém vagamente parecido com aquele seu colega de classe, que se transforma no próprio tirando-se alguns anos e alguns quilos.
Mesmo quando não são atraídos por um estímulo exterior ao nosso pensamento, acontece com freqüência de pessoas, objetos e fatos, supostamente esquecidos, surgirem de repente: “ah, como eu gostava daquele leãozinho dourado da medalha do vovô!” É comum que isso seja gerado por uma associação de idéias. Sinal verde – verde – ecologia – mico leão dourado.
Como também ocorre do esquecimento aparecer assim, do nada, “meu lápis de bandeirinhas mordido na ponta!”, tenho minhas suspeitas de que a gaveta pode estar semi-aberta, ou até mesmo furada.
A questão de maior relevância desta tese, para mim, consiste na seguinte dúvida: será que as coisas esquecidas vivem tramando suas fugas, ou as coitadas escapolem apenas por causa de nossa atividade cerebral e, fora da gaveta, se sentem desprotegidas?
A segunda questão mais importante é: quem é mais poderosa, a ciência ou a fantasia?
A fantasia.
Por isso sempre temo pelo destino das lembranças que cismam em percorrer minha mente, não sei o que fazer com elas, e torço para que se acomodem onde se sentirem mais felizes.
Não.
Não me venham com palavras difíceis como hipotálamo, córtex central, núcleo talâmico, ou lobo parietal.
Eu aposto que está tudo lá dentro da gaveta.

sábado, 12 de setembro de 2009




A mocinha.

Ela está pronta para sair, linda como nunca, a noite é dela.
Sua vida é inspirada na mocinha do seriado que ela mais gosta.
Seu figurino, também.
O cabelo, puxado com um laço, cai desmanchado sobre os ombros. Sombra, delineador, lápis, rímel, batom. Vestido bonito, sapato alto, bolsa retrô. Estamos em 2009, mas ela podia estar em qualquer tempo, em qualquer lugar, inclusive na tela.
Ela é diferente das antigas mocinhas de romances, filmes e novelas: é mais esperta, mais descolada, mais engraçada, mais liberta, mais maluca.
É sentimental, temperamental, ingênua e romântica: ela é igualzinha às antigas mocinhas de romances, filmes e novelas.
O enredo da sua existência é composto por um conflito pessoal, problemas em casa, na escola ou no trabalho, uma vilã ou um vilão no seu caminho, e o desejo de encontrar um par.
A mocinha tem algo de Julieta. Tem algo de Cinderela. Tem algo de Dama das Camélias. Tem algo de Madame Bovany. Tem algo de Megera Domada. Tem algo de Vivien Leigh. Tem algo de Marilyn Monroe. Tem algo de Simone de Beauvoir. Tem algo de Leila Diniz. Tem algo de Amélie Poulain. Tem algo de Jennifer Aniston. Tem algo de mulherzinha. Tem algo de mulherão.
Ela é minha filha, ou sua filha, minha sobrinha, sua irmã, sua vizinha.
No episódio de hoje, a mocinha quer viver uma aventura. Ou quer viver um amor eterno. Quer ficar apaixonada. Ou quer dar uma virada. Ou quer romper com o passado. Ou quer inventar um futuro. Ou quer resolver sua vida. Ou tudo isso ao mesmo tempo. Quer ter um final feliz, é claro.
Uma cerveja na calçada? Uma tequila no lounge? Uma boate GLS? Uma balada fashion? Um lugar alternativo? Rock? Pop? MPB? Country? Dance? Música eletrônica? Tanto faz.
A mocinha dá uma última olhada no espelho, conserta a postura e sai de casa. Seu coração é toda a esperança que existe. Ainda no elevador, tem um pressentimento: é hoje. Na rua, a Lua Cheia confirma: é hoje mesmo.
Começa a gincana. As amigas, os rapazes, aquela música, uma leve doideira, o carinha de azul, vai chegar nela, quase chega, não chegou. Uma dose. Começa de novo. vai ao banheiro, retoca a maquiagem, ouve um segredo, parte para pista, olha o de amarelo, passou.
Ela pensa em disistir. Será que chama um táxi? Não. Hoje é sábado e todo mundo sabe que sábado é dia de sim. Ela persiste. Mais uma dose, a doideira está doida, a amiga está triste, o carinha de azul está com a moça de saia preta, deixa ele, lá vem outro, não veio, dançou.
Já são quase 5 da manhã.
Não apareceu príncipe, nem herói, sequer um conquistador.
Ela não ouviu galanteios, ela não deu nenhum beijo, ela não teve surpresa.
Voltou para casa, jogou o vestido no chão do quarto, dormiu maquiada, não trouxe lembrança importante.
A noite não foi dela.
Deve ter alguma coisa meio estranha com a noite.